sábado, 7 de setembro de 2013

Os Muckers - Um episódio de fanatismo religioso

Os muckers eram uma pequena comunidade de fanáticos religiosos que se formou no então município de São Leopoldo — atualmente no de Sapiranga — na localidade situada ao pé do morro Ferrabrás. Como todo o município de São Leopoldo, aquela era uma área ocupada por imigrantes alemães católicos e protestantes, que haviam chegado ao Rio Grande do Sul a partir de 1824.

Esse grupo de fanáticos era liderado por Jacobina Mentz Maurer — que se julgava uma reencarnação de Cristo e que prometia construir a "cidade de Deus" para seus discípulos. Jacobina, desde criança, passava por "transes" e, quando nesse estado, diagnosticava doenças.

Em 1866, se casou com João Maurer, e sua fama começou a crescer. Um grupo de adeptos cada vez maior se reunia na casa do casal nos finais de semana. O movimento foi crescendo, Jacobina foi proclamada "Cristo" e chegou a escolher seus apóstolos.

Os seguidores de Jacobina seguiam regras rígidas. Não bebiam, não fumavam, e não iam a festas. Isso provocava uma certa resistência por parte dos demais colonos alemães - resistência que se tornou maior quando os seus seguidores passaram a tirar as crianças das escolas comunitárias.

Muckers x Spotters

Essa antipatia entre os colonos "normais" e os seguidores de Jacobina fica bem expressa nos apelidos que respectivamente se deram: Mucker - falso religioso, santarrão - era a maneira como eram chamados os "fiéis" da novo "Cristo". E Spotter - debochadores - era como os seguidores de Jacobina chamavam seus adversários.

O clima de hostilidade entre os dois grupos foi se tornando cada vez mais intenso, até que o chefe da polícia local resolveu prender Jacobina e seu marido. O presidente da então Província do Rio Grande do Sul, entretanto, achou que houve precipitação - e determinou que fossem soltos. Com isso, ganharam força os fanáticos, que se convenceram, de vez, que Jacobina era mesmo o "Cristo". E os demais colonos acirraram seus ânimos contra os Muckers, atribuindo a eles qualquer coisa que acontecesse de ruim ou errado.

Como violência só gera violência, o clima ficava cada vez pior. Os muckers passaram a atacar seus inimigos - a casa de um ex-mucker, Martinho Kassel, foi incendiada, causando a morte de sua mulher e de seus filhos. Logo depois, incendiaram a casa de um comerciante, Carlos Brenner, matando as suas crianças. E também atacaram mais duas lojas e duas casas, chegando a executar um tio do marido de Jacobina, que não queria fazer parte da seita.

Ataque militar

Após esses e outros episódios violentos, houve nova intervenção policial em 28 de junho de 1874, quando 100 soldados cercaram o reduto dos muckers. Mas a luta foi um vexame: com soldados mal treinados e sem nenhuma estratégia, o comandante do grupo, coronel Genuíno Sampaio, viu seu grupo sofrer 39 baixas, enquanto os muckers tiveram apenas 6 baixas. O confronto, mais uma vez, serviu apenas para fortalecer os muckers, pois confirmava uma das "profecias" de Jacobina, que dizia que quem acreditasse nela não morreria.

Menos de um mês depois, em 18 de julho, houve um segundo ataque, comandado pelo mesmo coronel. Dessa vez, a casa foi incendiada, mas os muckers que lá se encotravam não se entregaram - preferiram morrer, pois acreditavam nas palavras de Jacobina, que havia lhes dito que iriam ressuscitar. Foram 16 os muckers mortos - mas Jacobina conseguiu escapar, acompanhada de alguns de seus seguidores. E, durante a noite, um dos muckers, provavelmente escondido no morro Ferrabrás, atingiu o coronel, que morreu no dia seguinte devido a uma hemorragia.

Novo ataque aconteceu no dia 21 de junho, sem resultados - depois de duas horas de confronto, os soldados se retiraram. A vitória só foi possível no dia 2 de agosto, quando, conduzidos por Carlos Luppa, um mucker que havia decidido se entregar e trair seus companheiros, os soldados puderam chegar até o reduto do morro Ferrabrás. Dessa vez, Jacobina e os 16 seguidores que a acompanhavam foram mortos.

Os muckers sobreviventes tiveram que enfrentar duros momentos. Durante oito anos, foram conduzidos de prisão em prisão, sem serem julgados. Finalmente, foram perdoados e soltos, mas tiveram que aguentar a perseguição dos colonos alemães até o final de suas vidas.
(Por Lígia Gomes Carneiro)


http://www.youtube.com/watch?v=zLel0siiLdY

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